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Treinamento do GATE em São Paulo
Por Marina Lemle
Será que o uso de um atirador de elite no caso do seqüestro em Santo André teria salvo a vida da refém? Essa foi uma das questões levantadas por diversos setores da sociedade e até por autoridades após o desfecho do crime na cidade da Região Metropolitana de São Paulo, que durou cinco dias e culminou na morte da adolescente.
O tiro não disparado foi um dos pontos mais criticados da ação do Grupo de Ação Tática Especial (Gate). O secretário Nacional de Segurança Pública, Ricardo Balestreri, e o ex-comandante do Gate Diógenes Viegas Dalle Lucca disseram à imprensa que a situação demandava um atirador de elite (sniper).
Os protocolos internacionais prevêem quatro alternativas para a resolução de seqüestros: a primeira é a negociação, por ser a que melhor converge ao objetivo primordial de se preservar todas as vidas. Se não for possível negociar, considera-se o emprego de explosivos e armamentos não letais e em seguida o chamado “tiro de comprometimento” por um sniper e a invasão.
“É preciso compreender e aceitar que existe o dia quando necessariamente é preciso sacrificar a vida de um criminoso para se salvar a vida de um refém inocente”, escreveu o capitão Lucca em artigo no Portal Imprensa.
Transmitidos ao vivo pela TV para o Brasil inteiro, casos como o de Santo André e o do ônibus 174, no Rio, no ano 2000, levantam dúvidas sobre o preparo da polícia brasileira para gerenciar situações de crise, apesar de grupos de elite como o Gate e o Bope, no Rio, serem considerados altamente qualificados, inclusive internacionalmente.
Em entrevista exclusiva ao Comunidade Segura, o secretário Nacional de Segurança Pública não culpa os policiais do Gate pelo desfecho trágico da ação. Balestreri reconhece que é preciso aprofundar as técnicas e treinamentos e oferecer equipamentos de ponta e adequados para situações de crise.
Para o especialista Paulo Storani, faltou ao Gate um aparato tecnológico apropriado para monitorar o que acontecia no apartamento. Ele acha que o tiro de comprometimento poderia ter sido dado, mas compreende que o gerente da crise não tenha tomado a decisão.
“Há ferramentas que reduzem a margem de risco, como câmeras articuláveis, escutas eletrônicas e sensores térmicos. O monitoramento de tudo é que vai permitir dar o sinal verde para a ação - o tiro e a invasão simultanea”, explica Storani, que é mestre de tiro e professor da Academia da Polícia Militar do Rio de Janeiro.
Storani ressalta que o gerenciamento de crises é um gerenciamento de risco, e que além de treinamento do pessoal, é preciso investir em tecnologia. Segundo o especialista, os equipamentos estão no mercado e não custam mais do que uma ou duas viaturas, mas os requerimentos se perdem na burocracia. “Dinheiro tem, mas não se compra. Quanto vale uma vida? Só sabemos o valor quando se perde uma”, observa.
Ele explica que o profissional tenta superar a deficiência tecnológica, mas acaba tendo que agir no improviso. “O Gate não teve sorte diante das muitas variáveis do seqüestro com reféns”, diz. Storani lembra que o Gate foi a primeira unidade de Polícia Militar no Brasil a ser constituída para atuar em crises com reféns e artefatos explosivos a partir de técnicas e protocolos internacionais.
“O Gate é difusor de doutrina. Seu índice de sucesso é infinitamente superior ao de fracasso, e isso se deve ao processo de seleção, treinamento e controle do resultado dos seus integrantes. Não posso acreditar que não tenha um nível ótimo de treinamento”, defende o professor, que foi subcomandante do Bope e hoje é secretário de Segurança de São Gonçalo, RJ.
Além da falta de equipamento adequado, Storani critica a pressão política feita por setores da polícia e os excessos da imprensa, que interferem no processo de resolução das crises. Nada disso justifica, entretanto, equívocos como a volta da refém Nayara ao cativeiro, para a qual ele não tem explicação e que foi considerada inadmissível pelo secretário Balestreri.
Freixo: polícia demonstrou "despreparo absurdo"
Outros pontos como a manutenção da energia e a permissão que o seqüestrador tivesse acesso a meios de comunicação também colocam interrogações no trabalho policial. Para o deputado estadual do Rio de Janeiro Marcelo Freixo (PSOL), a polícia demonstrou um "despreparo absurdo" na ação. "Não teve domínio da técnica nem preparo emocional. Foi um desmando completo", disse.
Sobre a opção do tiro de comprometimento, Freixo, que é vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) e coordenou projetos educativos no sistema penitenciário, observou que esta poderia ser uma solução se tecnicamente não se pudesse fazer mais nada.
"O uso da força está previsto na lei. Não existe ponto de vista de direitos humanos que seja diferente da lei. Se não há outra possibilidade e existe risco para a vítima, essa alternativa se coloca. Mas inúmeras outras coisas poderiam ter sido feitas. Participei de várias negociações com reféns em presídios, ajudando pessoal treinado pelo Bope, e nunca foi preciso pensar nisso. É preciso dificultar a permanência no local, sempre ter alguém da confiança do seqüestrador na negociação e jamais retornar um refém", disse.
Em Goiás, Batalhão de Pronto Emprego capacita policiais de outros estados
No Brasil, não existe uma força especial unificada como a Swat (Special Weapons and Tactics), dos Estados Unidos. Existem grupos de elite, principalmente nas polícias do Rio e São Paulo, com entre 15 a 20 policiais, treinados para atuar em situações de risco.
Para aumentar esse contingente e melhorar o preparo das polícias estaduais para esses casos, foi inaugurado em Luziânia, Goiás, em 30 de setembro, o Batalhão de Pronto Emprego (Bepe), da Força Nacional de Segurança. O Bepe será o primeiro grupamento de choque com preparo para agir em situações críticas – como seqüestro com reféns, rebeliões e outras ocorrências de alto risco - que o governo federal colocará à disposição dos estados.
Na inauguração, o secretário Balestreri ressaltou que o Bepe terá um caráter de “batalhão escola”. Os profissionais que concluírem o treinamento voltarão aos seus estados de origem aptos a repassar os conhecimentos adquiridos e levando consigo equipamentos de ponta para as suas polícias.
Balestreri enfatizou a doutrina de respeito aos direitos humanos que embasa a capacitação. “Um batalhão altamente especializado não é um batalhão da morte. É um batalhão da preservação da vida e da dignidade humana”, disse.
Inicialmente, 150 policiais dos estados de Alagoas, Maranhão e Rio Grande do Sul participam da capacitação que terá duração de um ano. Outros 400 policiais de oito estados serão incorporados ao grupo assim que forem concluídos alojamentos para recepcioná-los. As obras estão em fase de licitações e a expectativa é que sejam concluídas até janeiro de 2009. Os homens e mulheres serão capacitados por instrutores brasileiros e de países com grande experiência na área, como Israel e Estados Unidos.
Visite também o Portal www.comunidadesegura.org
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Prezado Jean, investimento em tecnologia é bem vinda, mas não resolve o problema do ""estado de tensão"", que envolve a maioria das ocorrências. Este é o calcanhar de aquiles da polícia, tanto civil quanto miliar. Não se trata somente da falta de preparo mas, também, da falta de contrôle emocional para lidar com situações de stress, como sequestro com reféns.
Acho necessário e também oportuno a presença de psicólogos (talvês forense) durante as negociações, para ajudar os policiais a conduzir o diálogo, com base no perfil pesicológico do sequestrador, nas circunstâncias do fato e dos policiais envolvidos na operação.
O estado de tensão é predominante nesses casos e saber avaliar a hora certa de agir e o que dizer, certamente há de levar à um desfecho mais positivo, para todos.
Quanto a tecnologia, até temos, mas não está sendo bem aproveditada. Resta o intercâmbio com os grupos de elite.
Acho que toda iniciativa é válida, quando o assunto é segurança pública. Feliz natal !
Amadeu Epifanio · Rio de Janeiro (RJ) · 25/12/2008 14:15
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