RESPEITAI-VOS UNS AOS OUTROS...
Antonio Jorge Ferreira Melo*
De todas as virtudes essenciais para que a sociedade se torne digna do adjetivo civil, a tolerância é fundamental. A tolerância não é exatamente considerada uma “grande virtude” ou “virtude cardinal”, tal como é a justiça, a coragem, a prudência e a temperança ou moderação. Contudo, ela não deve ser um mero e mecânico ato de convívio das diferenças. Ou seja, a tolerância deve ser um ato constante de prevenção e educação.
A tolerância “é uma espécie de sabedoria que supera o fanatismo, esse terrível amor a verdade” (Alain,1995). No fundo, ela é uma espécie de prevenção contra o dogmatismo, para que este não vire fanatismo (na dimensão pessoal), fundamentalismo (na dimensão religiosa) e totalitarismo (na dimensão de Estado ou de governo).
A tolerância é essencial para o exercício das coisas pequenas do cotidiano. O exercício da tolerância deve ser um movimento de ação e reação; “ação” a favor de idéias e atos de tolerância e reação contra tudo que cerceia, reprime, oprime, discrimina, que não respeita as diferenças humanas, sejam étnicas, culturais, religiosas, etc. A democracia é um bom exemplo de exercício, ao mesmo tempo, desse movimento de ação e reação, ou seja, “Democracia não é fraqueza.” “Tolerância não é passividade”.
Em um regime democrático, quais os limites da tolerância? A tolerância deve parar no limiar do crime? José Saramago nos diz que não: “Educa-se ou pune-se” (1995). Nesse sentido, não se pode ser tolerante com o crime organizado, o terrorismo, a corrupção, a desobediência à lei, a cultura do “tudo vale”, do “tudo pode” em nome de uma causa justa, todavia, não devemos ter tolerância com a iniqüidade, a miséria, a banalização da violência, o descaso quanto à vida, o desprezo aos valores como a solidariedade e respeito ao próximo. Tolerar o sofrimento dos outros, a injustiça de que não somos vitimas, o horror que nos poupa não é tolerância, mas egoísmo, indiferença, é tornar-se cúmplice por omissão.
Ao pensarmos em tais questões, perpassa pelas nossas cabeças perguntas e respostas. Perguntas como a do escritor e pacifista israelense Amós Oz (1999), para quem a tolerância é a questão fundamental do século 21: “A tolerância deve se tornar intolerante para se proteger da intolerância?”; Respostas como a de Karl Poper (1987): “Se formos de uma tolerância absoluta, mesmo para com os intolerantes, e se não defendermos a sociedade tolerante contra os seus assaltos, os tolerantes serão aniquilados e com eles a tolerância”.
Se a tolerância pudesse existir sem limites, se fosse uma verdade universal, se todos fossem plenamente respeitáveis e respeitadores das diferenças humanas, provavelmente, o mundo seria melhor de se viver, mas uma sociedade onde fosse possível uma tolerância universal deixaria de ser humana e, de resto, não precisaria de tolerância. Enquanto essa utopia não se realiza, cumpre estabelecermos limites. Lembremo-nos de Leonardo Boff, (2005) pois, “o melhor caminho é a democracia sem fim que se propõe a incluir a todos e a respeitar o pacto social comum”.
* Coronel PM R/R. Graduado em Segurança Pública pela Academia de Polícia Militar do Estado da Bahia e em Direito pela Universidade Federal da Bahia. Especialista em Gestão de Segurança Pública e em Direitos Humanos e Mediação pela Universidade do Estado da Bahia. Especialista em Políticas e Gestão de Segurança Pública e mestrando em Desenvolvimento e Gestão Social pela Universidade Federal da Bahia.
|