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Embora sejamos diariamente bombardeados pela mídia com notícias de inclusão social, o poder aquisitivo no sistema capitalista é um grande diferencial para a obtenção de qualquer serviço, seja público ou particular. Mesmo sendo o Brasil um dos países mais maleáveis e menos excludentes, e, teoricamente, abdique de qualquer forma de discriminação, ela é sutilmente confirmada nos casos de etnia, cor, gênero, dentre outras. Já com relação à pobreza, percebe-se que não existe uma preocupação em se dissimular esse tipo de preconceito, ele é visivelmente declarado. Essa exclusão revela-se como injustiça, quando essas pessoas passam a ser isentas de alguns serviços, benefícios e garantias dispensadas pelo Estado, já que, na cidadania não se protege apenas o direito à vida (quando se protege), mas o direito à vida em sociedade. Vergonhosamente, esse é um fato apoiado pela maioria e só percebido por alguns.
Nas ruas, escolas, hospitais, coletivos, em todos os lugares as pessoas mais carentes são, na maioria das vezes, renegadas e mal acolhidas. Nos postos e delegacias de polícia isso não é diferente, sendo esse aspecto agravado, quando esse pobre, além de pobre, está no papel de acusado, autor, indiciado, seja lá como for qualificado quem tenha praticado algum delito. Não só os “detidos” como as suas famílias sofrem com essa diferença quando se amontoam nas portas dos distritos, temerosos com o que pode estar acontecendo na carceragem e, mal grado, são recebidos como se também fossem delinqüentes.
Num desses episódios, a esposa de um rapaz que havia sido preso em flagrante por roubo chegou até a delegacia com uma criancinha de uns seis meses segurada num braço e na outra mão uma marmita – o almoço do marido – ela estava visivelmente abalada e apreensiva. Ao entrar, perguntou ao policial que estava na permanência se poderia levar a comida do rapaz, indagaram quem era a pessoa, fizeram um comentário jocoso e pediram para esperar. Mais ou menos duas horas depois, o bebê chorando, ela tornou a perguntar e a resposta foi a mesma. Depois de mais uma hora, ela outra vez insistiu, então um dos policiais pegou a vasilha e mandou que ela fosse embora; guardou a comida e só a entregou após, muito após a hora da janta. Alguns poderiam achar isso muito normal, o “safado” estava ali porque merecia. Mas, então, porque é que o outro, do lado oposto, que fora pego com alguns gramas de cocaína no porta-luvas da caminhonete quando estava em alta velocidade, tendo ainda atropelado uma criança, nem era “safado”, nem ficou com fome, nem deixaram sua família “quarando”, nem o seu advogado sem água ou café? Piora ainda, quando passam numa peneira as ocorrências para investigação, já que são infinitas e de toda ordem. Nos casos de roubo, alguns grandes comerciantes podem até cogitar em ter de volta parte de seus pertences, além de ver o “malfeitor” atrás das grades; nos mais graves como os de homicídio, só há a devida importância quando não são apenas “Zé-micídios”, é o que se escuta.
Em situações de abordagem é onde fica mais evidente a distância entre a compreensão do que seja violência para “os de cima” e para “os de baixo”. No filme-documentário “Notícias de uma Guerra Particular” projetado numa das favelas do Rio de Janeiro, temos depoimentos dilacerantes de alguns dos moradores que, declaradamente, defendem os traficantes: “depois da presença deles no morro, a própria polícia é mais cautelosa quando sobe, antes, já chegava derrubando as portas, ameaçando e arrastando qualquer um – mulher, criança, idoso – quem ali estivesse; alguns produtos de urgente necessidade, como remédios, por exemplo, são prontamente providenciados, bastando que a gente apresente a receita”. É a inversão dos papéis nos lugares esquecidos pelo Estado, a prestação de serviço é feita pelos temidos e repreendidos e ainda há quem não acredite em “Robin Wood”.
Levando em consideração que a Polícia é o braço armado do Estado e representa, ou deveria representar, a segurança da sociedade, necessário seria que, no mínimo, tivesse a confiança da comunidade para executar um bom trabalho que pudesse responder aos aclames sociais com um resultado satisfatório, porém, como se tem visto, em algumas situações ainda funciona como agência de descontrole social, ao invés do contrário; quando age de maneira informal, infratora, abusiva e arbitrária. Somado a esses fatos, o descaso dos gestores públicos com a segurança pública, diminui a transparência e responsividade que os servidores, em geral, deveriam manter quando no desempenho de suas funções, é a ausência de acounstabilidade.
Primar pelo respeito às diferenças e atuar sempre de acordo com as normas dos Direitos Humanos que, vivenciados ou não, já estão em sua quarta geração, é apenas a mola mestra de impulsão no caminho de uma grande parceria no combate à criminalidade – polícia / sociedade – buscando o resgate da confiança e a restauração da imagem, ora deteriorada.
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