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O GATE-SP foi feito refém da sociedade! Iniciemos as negociações...
Negociar é quase um jogo, mas não qualquer jogo! Falo da Teoria da Complexid ade . Assim, a metáfora é cabível a jogo de tabuleiros como o popular “Xadrez” ou o Go . Em ambos as possibilidades de jogadas certas são muito amplas, em especial no segundo, cujo tabuleiro é um quadriculado de 19x19 jogado com 361 pedras.
Negociações entre policiais e reféns são parte da Teoria da Complexidade, cujas possibilidades de “jogadas” são infinitas. Mas, o que é complexidade? Beer (1959) nos dá uma idéia. Imaginemos uma equipe composta por sete pessoas. Quais são as possibilidades de interações (comunicações) entre essas pessoas enquanto equipe? Não é necessário recorrer a cálculos difíceis, uma simples fórmula resolve o problema: p=n(n-1), onde “p” é o número de possibilidades e “n” o número de indivíduos. Assim, p=7(7-1) o que nos dá o resultado: p=42.
Até então muito simples! Mas, imaginemos agora as possibilidades de interações das pessoas da equipe duas a duas. A fórmula, novamente, é simples: 2p2, onde p2 é o segundo indicador de possibilidades. O resultado é surpreendente: 242 nos dá, como resultado, algo próximo a mais de 4 trilhões ou, mais exatamente, 4.398.046.511.104 possibilidades.
Apesar da complexidade, se aplicada à metáfora dos jogos de tabuleiro, sabemos que, de todas as possibilidades, pouquíssimas podem conduzir o jogador à vitória. Façamos um exercício para transpor esse raciocínio à negociação ocorrida entre a PM de São Paulo, mais especificamente o GATE-SP, com o seqüestrador da menina Heloá, Lindembergue Fernandes Alves.
Não imagino o número de policiais envolvidos no processo de negociação. Apesar de poucos porta-vozes, o número deve transcender ao exemplo dado de sete pessoas. Obviamente, também, o número de possibilidades de negociação tem uma tendência exponencial.
Os policiais do Gate recebem treinamento de altíssimo nível para lidar com situações assim, o que não impediu, contudo, o fracasso absoluto do processo. No momento que escrevo, Heloá, uma jovem de 15 anos, já faleceu.
Sua amiga, felizmente, sobreviveu e poderá esclarecer com detalhes os acontecimentos. Isso, porém, não muda a ordem dos fatos nem a responsabilidade social do GATE, pela péssima condução da negociação. Não há nenhuma pergunta a ser feita: o GATE-SP não cumpriu sua missão. É fato consumado e, espero justiça, não apenas na esfera legal, como também corporativa. O GATE-SP precisará, urgentemente, rever as competências e habilidades de seus componentes, de preferência, “top-down”. Tornou-se refém da sociedade!
Nayara, amiga de Heloá sobreviveu, em parte, sob a ótica da Teoria do Caos , para graças do GATE-SP. Por outro lado, não há como conter a indignação pela corporação ter permitido seu retorno ao cativeiro. Não existem justificativas que justifiquem.
Apesar de me considerar leigo no assunto, eu tentei contribuir através de uma pesquisa na Web (vide artigo publicado neste site) conclamando especialistas inicialmente e, depois, toda a minha rede de relacionamentos a emitirem opiniões sobre o fato. Isso não me alivia, não tira a minha dor, não enxuga minhas lágrimas... Repito, somos todos responsáveis pela morte de Heloá.
Como humanos, necessitamos todos de paz para dormir. Com essa culpa que, atribuo ser coletiva, os que conseguirem dormir tranqüilos denomino de “alienados temporários”. O tempo cuidará também dos incautos, grande maioria, que retomarão o sono tranqüilo após o processo de “esquecimento”. Semana que vem, quinze dias, um mês, ninguém mais saberá que Heloá morreu ou deixou de viver. Isso tem sido a lógica dos que assistem a violência como uma novela na televisão. Precisamos, urgentemente, mudar essa “lógica”.
A pesquisa exploratória que fiz não me permitiu tirar conclusões suficientes como um instrumento de apoio a casos assim. Contudo, qualitativamente, fiquei muito satisfeito com os resultados. Ao todo, oito pessoas registraram sua participação. Dessas, apenas três manifestaram sua opinião. Vejamos:
“A tentativa de exaustão física/mental imposta pela negociação da policia, precisa ser ponderada com a capacidade de ceder. Não se pode afirmar a total passionalidade dos atos do seqüestrador, sem essa afirmação é difícil prever se ele entende a gravidade de seus atos! A fim de evitar por parte do seqüestrador a falta de esperança, a utilização de sua família como forma de apoio a sua reintegração, pode ser feita via meios públicos, como forma de apelo ao termino do seqüestro.” (anônimo, 15/10/2008 18:22:55 hs).
“A polícia precisa agir com muita calma, pois adolescentes são muito emocionais, não medem muito as conseqüências do que fazem quando o ato praticado já está errado desde o início, como um seqüestro. O rapaz não tem antecedentes, a mãe está sendo medicada e ele já demonstrou preocupação com as conseqüências de seu ato em relação à família. Os policiais precisam agir com calma e firmeza na rendição do rapaz, qualquer precipitação pode levar a um desfecho inesperado, pois ele já declarou que não confia na polícia.” (Sonia Goulart, 16/10/2008, 00:38:09).
“Na linha de que jovem tem plena conseqüência dos seus atos, a situação pode ser mais crítica do que parece. Se ele perceber que perdeu, terá conseqüências e a moça não ficará com ele, ele poderá concluir que mais vale encerrar tudo, então. E isso, mesmo sendo um rapaz novo. Percebo grande chance para um fim trágico. Me parece que tudo anda solto demais . A opinião publica é de que lá dentro é FESTA e que a policia esta condizente ( isso ouço no meu local de trabalho, na vizinhança e na faculdade). Se a policia não tem esquema tático para esta situação, imagine para lidar com um esquema de tráfico infiltrado nos bairros ( morros ) ?” (Marianne Maier, 17/10/2008, 13:39:46).l
Os destaques “falam” por mim. Que bramem os dirigentes, o prefeito, o governador, o presidente do país, a população brasileira, nós, EU...! Somos todos responsáveis pela morte de Heloá, e das helóas de ontem, de hoje e de amanhã... enquanto permanecermos passivos!
Niraldo José do Nascimento
Agradecimento: no momento, sou um profissional de tecnologia da informação, autônomo. Meus vínculos institucionais se resumem a membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e outras instituições de caráter científico. Mas, gostaria de registrar que a pesquisa só foi possível graças à SPHINX Brasil © que, em uma versão demonstrativa de seu principal aplicativo, permite a qualquer um de nós, com a agilidade e qualidade que casos assim requerem, disponibilizar, sem nenhum custo, pesquisas semelhantes.
“Complexidade é a escola filosófica que vê o mundo como um todo indissociável e propõe uma abordagem multidisciplinar para a construção do conhecimento. Contrapõe-se à causalidade por abordar os fenômenos como totalidade orgânica.” Fonte Disponível na Internet via WWW. http://pt.wikipedia.org/wiki/Complexidade [online]. Acesso em 20 de outubro de 2008.
“Go, Weiqi ou Baduk se trata de um jogo estratégico de soma zero e de informação perfeita para tabuleiro , em que duas pessoas posicionam pedras de cores opostas. Sua origem vem da antiga China, entre 2000 aC e 200 aC.” Fonte Disponível na Internet via WWW. http://pt.wikipedia.org/wiki/Go [online]. Acesso em 20 de outubro de 2008.
BEER, Stafford. 1959, Cybernetics and Management, English Universities Press
“A Teoria do Caos para a física e a matemática é a hipótese que explica o funcionamento de sistemas complexos e dinâmicos. Em sistemas dinâmicos complexos, determinados resultados podem ser "instáveis" no que diz respeito à evolução temporal como função de seus parâmetros e variáveis. Isso significa que certos resultados determinados são causados pela ação e a interação de elementos de forma praticamente aleatória.” Fonte Disponível na Internet via WWW. http://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_do_caos [online]. Acesso em 20 de outubro de 2008.
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Obrigado pela participação Jessé. Tenho um grande respeito pelo GATE-SP e pela nossa polícia em geral. Desvios e erros não são exclusividade de nós, brasileiros!
O que tenho mais questionado ultimamente é que, grande parte da sociedade não vê que a polícia foi criada por nós mesmos, é um "produto" social. Isso tem duas conseqüências: o distanciamento na crítica (ex. "A culpa é da polícia. Eu não tenho nada a ver com isso") e a separação ideológica da própria polícia, que corre o risco de se isolar da sociedade que a criou. Isso repercute em uma tendência ao "absolutismo" (ex.: "Como policiais treinados nós podemos resolver todos os problemas sozinhos).
O que penso e defendo nesse artigo, em suma, é o rompimento desse tipo de pensamento, tentando mostrar que a polícia e a sociedade não são entidades diferenciadas, mas instâncias que devem manter um processo de retroalimentação mútua, pois no fundo, somos um todo indivisível.
Niraldo José do Nascimento · Brasília (DF) · 23/10/2008 08:03
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Talvez o lema parecido...'a polícia é a sociedade e a sociedade é a polícia', insigne de policiamento comunitário, já em voga e perfeitamente idealizado em nosso país, seja, mais que nunca, uma necessidade urgente de adaptações e concretudes. Ora, os tempos negros de nossa história abriram um leque muito espaçoso entre as nossas pretensões e as pretensões sociais - a polícia está distante da comunidade - e tudo isso tem contribuído para desfechos infelizes no campo de atuação. O caso da menina Eloá exigem parâmetros os mais diversos, desde o educacional, englobando comportamentos naturais e adquiridos até o sujeito ativo, resultado desse produto. Imprescinde políticas púiblicas arrojadas e corajosas, e por enquanto...somos os nós(polícias) ps responsáveis; afinal, alguém tem que arcar com as consequências.
Francisco Rivelino Veiga de Paula · Fortaleza (CE) · 31/10/2008 15:11
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Observáveis colocações do amigo. Entretanto, o gerenciamento de crise está acima do mero "Gerenciar crises". Sou Policial Militar faz sete anos e já estive em situações em que o gerenciamento de crises é sobreposto pela vontade política. À medida que as negociações vão se tornando públicas, televisadas e argumentadas ao vivo, as ações passam a ser mais políticas do que lógicas. Sábias palavras do Coordenador da equipe, um renomado Coronel do Gate de SP. Aliás, paabenizo o papa das negociações no Brasil, o CAP LUCCA, com diversos artigos e monografias na área do Gerenciamento de Crises. Entretanto volto a mencionar as palavras do Coordenador: "Se tivéssemos dado um tiro no perpetrador, a mídia estaria com outro questionamento - mas era réu primário, bons antecedentes, residência fixa, sem antecedentes criminais, estudadava e possuía vínculos AMOROSOS com a menina, coisa de adolescente!!!"Aliás todos os subterfúgios para qualquer advogado impetrar recurso em diversas ONG's de Direitos Humanos. Não critico os Direitos Humanos, pois sei a fundamentação legal e histórica, pois sou Aspirante da polícia Militar do Tocantins, Técnico em segurança Pública pela PMMG, Pós graduando em Direitos Humanos e Cidadania e Licenciado em Letras pela Federal de Uberlândia. Sintetizo: o erro está na articulação política que amarra a doutrina, que amarra o serviço policial e, principalmente, os funcionários encarregados pela aplicação da lei.
Analise a situação sob a ótica da política e verá, indiretamente, uma eleição para prefeito de SP (mesmo não sendo exatamente lá), uma briga entre secretários de segurança pública e, principalmente, o bárbaro episódio de conflito entre PM e PC. mas o caminho é este, estudar para comentar. Parabéns.
Gleidison Antônio de Carvalho · Palmas (TO) · 1/11/2008 16:52
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O Fórum disponibilizou este espaço democrático para difusão de
artigos, idéias, experiências exitosas e proposições sobre polícia e segurança pública. Nosso filiado Niraldo, neste artigo, abordou com propriedade o complexo processo de negociação da polícia com o seqüestrador em evento com reféns. Porém, mesmo admitindo não dispor de dados, teceu considerações sobre a atuação policial no evento que culminou com a morte da jovem Eloá e apontou falhas e erros cometidos na operação. Vários de seus leitores também acharam e deram seus palpites. Reconheço o direito de todos externarem seus pontos de vista e suas críticas, mas ao utilizar este espaço para fazê-lo, desvirtua seu objetivo e contraria as diretrizes que regem o nosso Fórum.
A análise de uma operação policial complexa, como a gestão de crise, requer conhecimento dos detalhes técnicos e dos recursos humanos e materiais disponibilizados para a equipe. Depende do cenário e das circunstâncias em que o evento se desenrola. E a avaliação do processo de negociação depende de fatores personalíssimos, ainda mais no caso em tela em face da motivação do seqüestrador e da debilidade da moeda
de troca.
Por fim, em se tratando de operação de altíssimo risco, todos esses vieses são obrigatória e exaustivamente analisados pela polícia, quando os acertos e as eventuais falhas são identificados e apontados. Esse "estudo de caso" é incorporado ao treinamento da equipe e difundido para as congêneres. É daí que provém o êxito da quase
totalidade de operações exitosas dessas equipes altamente
especializadas mantidas pelas polícias brasileiras.
Paulo Sette Câmara · Belém (PA) · 5/11/2008 09:46
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Prezado Paulo Celso,
Com todo respeito que me cabe ao dirigir ao Presidente e membro do Conselho de Administração do Fórum Brasileiro de Segurança Pública - FBSP me sinto obrigado a questionar se o artigo que enviei, segundo suas palavras “...desvirtua seu objetivo e contraria as diretrizes que regem o nosso Fórum.”
Antes de qualquer argumentação, enalteço a elegância da abordagem e posicionamento expresso em seus comentários, principalmente no que refere ao processo de aprendizagem retroalimentado pelas experiências vivenciadas pelas corporações policiais.
Como justificativa de que, do meu ponto de vista, não desvirtuei os objetivos e diretrizes do FBSP invoco três referências: 1ª) Acredito que meu artigo se enquadre dentro da vertente “3. Gestão da Informação” dos princípios do FBSP. Cabe ressaltar que a vertente “8. Dentre outras.” apresenta forte vulnerabilidade, embora não me apóie nela; 2ª) A cláusula 4ª do Capítulo 1 do Estatuto Social do FSBP afirma que “O Fórum tem como objetivo social a promoção da paz, da cidadania e dos direitos humanos, por meio de ações que facilitem o intercâmbio e a difusão de idéias e conhecimentos para o aperfeiçoamento da organização policial [...], da qual destaco o termo “difusão de idéias e conhecimentos”; 3ª) A primeira fase de seu comentário “O Fórum disponibilizou este espaço democrático para difusão de artigos, idéias, experiências exitosas e proposições sobre polícia e segurança pública.” Onde destaco os termos “difusão” e “idéias”.
Nesse sentido, acredito que meu artigo se enquadre dentro do conceito de “difusão de idéias e conhecimentos”.
Embora tanto “idéias” quanto “conhecimentos” sejam termos que carregam em si grandes subjetividades, concordo que no contexto do FBSP ganhem contornos mais nítidos, ainda que de fraca delimitação.
Argumento, portanto, que meu artigo, ao se sustentar por idéias e conhecimentos, está perfeitamente alinhado às diretrizes do Fórum.
Quanto às falhas apontadas, reconheço tratar-se de uma crítica que toma características de um pré-julgamento. Porém, há um fato inquestionável: as falhas do processo de negociação conduziram a um desfecho não desejado e é, nesse contexto, que desenvolvo minhas críticas.
Concluindo, assumo que determinados trechos do artigo apresentam um certo “descolamento” com uma abordagem mais neutra e não-emotiva. Pretendo, se me dada a oportunidade, continuar participando e colaborando com o FBSP e, cuidando para que o envolvimento emocional não descaracterize minhas opiniões.
Coloco-me, enfim, à disposição tanto das instâncias normativas e deliberativas do FBSP, como de seus associados, no que tange à continuidade de minha participação. Não havendo manifestação em contrário, darei continuidade às minhas tentativas de contribuição.
Atenciosamente,
Niraldo José do Nascimento
Niraldo José do Nascimento · Brasília (DF) · 7/11/2008 13:12
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É fácil a quem não está vivenciando os fatos,julgá-los e apontar os erros depois do desfecho.Observemos que durante as 100 horas de negociação,políticos que foram ao hospital,não apareceram na ocorrência.Enquanto a negociação ocorria,o perpetrador era apenas um jovem com problemas,assim o veria a sociedade que hoje o vê como um a margem da Lei.E mais ainda:caso um sniper tivesse atuado se perguntaria de quem partiu a ordem?pena de morte(com exceção de guerra declarada)é permitida no Brasil?como agiria a sociedade,a justiça...com o policial matador(não nos enganemos ingenuamente com um canto de sereia)?Houve erros.Dificilmente sabemos enumerar quantos,de quem....Temos o defeito de não assumirmos nossos erros,joga-los para outros e então não consertá-los.É triste hoje vermos uma sociedade que tem na televisão a mãe,o computador o pai,o traficante o......e mais ainda;quando a família,escola,igreja não dão jeito só resta a polícia.Querem fazer da polícia o lixeiro da sociedade e não foi para isso que a polícia(que vem da tua traduzida polis)foi criada.
Orjana Maria Maia Klein · Fortaleza (CE) · 9/11/2008 09:14
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