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Gerenciamento de Crises é uma matéria que algumas academias de polícia no Brasil ensinam no curso básico, mas que demandam uma especialização posterior. O GATE da Polícia Militar de São Paulo é um grupo de excelência nesta matéria.
Tive a referida disciplina durante o Curso Especial de Polícia e depois em um curso específico ministrado pela Secretaria Nacional de Segurança Pública. Sou portanto um "graduando" na matéria, enquanto os homens do GATE são "doutorados", com o sucesso de mais de 3.000 reféns libertados ao longo de 10 anos.
Ainda me espanto com as criticas de profissionais que nunca tiveram uma única aula, nunca realizaram de um estudo de caso, que nunca participaram de uma única ocorrência. Impossível não apontar o comentário de um oficial policial militar que disse que "teria determinado o tiro" (feito o uso de snipper). Decisões são tomadas pela equipe, havendo uma cadeia com comando hierarquico, mas sem aquele viés autoritário de "eu mando e eles cumprem".
Se pudesse tecer uma critica construtiva, diria que a maior dificuldade dos profissionais que atenderam a ocorrência é justamente transmitir à imprensa e à sociedade o real significado de uma situação de crise. Após 100 horas de exaustivas negociações, certo que abalados com aquele trágico desfecho, os policiais ainda sentaram em frente a ávidos profissionais de imprensa para tentar explicar o ocorrido. E teriam pela frente relatórios, debriefing, estudo de caso e um inquérito policial para responder.
Precisamos nos distanciar dos filmes de ação, onde uma equipe tática impecavelmente vestida e armada põe fim a situação e volta para o descanso do lar. Estudos de casos mostram que a realidade não é essa.
Gerenciar uma situação de crise equivale a uma delicada intervenção cirurgica. A equipe médica vai realizar tudo o que estiver ao seu alcance para que a cirurgia termine bem sucedida, mas isso não significa necessariamente que o paciente saia dela com vida. A equipe médica inicia a cirurgia sem saber o que vai encontrar pela frente. Qual a extensão dos ferimentos com os quais irá se deparar. E a todo momento, quando tudo parece controlado e caminhando para um final feliz, o paciente pode vir a ter complicações, e a cirurgia voltar a estaca zero.
Então temos a hipótese da cirurgia terminar bem sucedida, do paciente ficar com sequelas, ou mesmo de vir a falecer. Não ocorrendo a primeira hipótese, não significa necessariamente que a equipe médica tenha falhado. Como eu disse, ela precisa fazer de tudo para salvar o paciente, e foi o que fizeram os homens que conduziram o "caso santo andré".
A operação policial, sob o ponto de vista doutrinário, não pode ser considerada fracassada. Parece-me que os policiais buscavam uma solução em que todos saissem com vida. Pelas entrevistas, não consideravam o "tomador" um marginal, mas uma pessoa psicologicamente abalada. Concluiram que havia possibilidade de um final feliz e essa conclusão só quem pode ter ou deixar de ter é a equipe profissional que, munida de vários fatores, atendia a ocorrência.
Uma das preocupações que a equipe deixou passar foi a de que a decisão de invadir o local só foi decidida após o "tomador" disparar um tiro. É preciso que fique claro à sociedade que mesmo sem um disparo de arma de fogo essa decisão pode ser tomada, baseada em outros fatores. O vídeo mostrado pela imprensa onde o "tomador" diz ao negociador "vai embora que essa bomba vai explodir", aliado ao "tem um diabinho dizendo para eu fazer" podem justificar a intervenção do grupo de intervenção tática, a critério da equipe de gerenciamento.
Nós aprendemos muito mais com os erros que com os acertos. Na década de 90, durante uma situação de gerenciamento de crise, houve a decisão de fazer uso do snipper. O resultado foi a morte do "tomador" e da refém, uma jovem e bela professora de educação física. Em 2008, após cometer um roubo e ser perseguido, o assaltante manteve uma pessoa sob seu dominio. Durante o gerenciamento da crise, fez como unica exigência falar com sua mãe pelo celular. Após fazê-lo, disparou sua arma contra seu próprio peito, vindo a falecer.
Aos policiais que participaram da ocorrência, o muito obrigado de um cidadão, que sabe que ali foi feito o melhor, ainda que o resultado não tenha sido aquele com o qual todos nós contávamos.
Marcelo Pasqualetti é agente de polícia federal, sub-chefe do Núcleo de Operações em Florianópolis/SC.
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Parabéns Marcelo, somente os policiais envolvidos em situações como esta sabem a pressão que existe. Porém, após os eventos, as declarações do comandante do batalhão de choque me pareceram bastante desarrazoadas. Deu a impressão de que não ordenou o tiro de comprometimento por causa da mídia, em outro momento falou que a Nayara foi utilizada nos procedimentos e posteriormente justificou que a mesma estava abalada, como, então, usou da garota como instrumento? Quanto ao tomador, este dava a impressão clara, nas gravações das conversas, de estava mentalmente abalado, daí podendo-se chegar a qualquer desfecho, mas como já havia efetuado disparo contra os primeiros atendentes da ocorrência e vez por outra disparava a arma, jamais deveria ser tido como um "jovem com problemas amorosos". Infelizmente uma série de equívocos que ceifaram a vida da vítima, mas, se algo positivo houve, pelo menos que seja o exemplo do que não se deve fazer.
Carlos Alberto Romolo Kiffer · Nova Iguaçu (RJ) · 25/10/2008 15:28
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Caro colega Marcelo, concordo com sua linha de pensamento em gênero, número e grau. Vejo com certa desconfiança quando alguns “especialistas em segurança pública”, de plantão vêm frente aos órgãos de imprensa dar suas famosas declarações de que isto é errado, aquilo foi errado, e que ninguém acertou. É claro que toda ação tem falhas, (quem nunca errou que atire a primeira pedra), mas penso que apenas aqueles profissionais que estavam no local do evento poderiam avaliar as circunstâncias e assim tomar uma decisão, é no mínimo falta de ética por parte daqueles que criticaram a ação do GATE, sem sair do aconchego de seus lares, acompanhando tudo pela nossa “imprensa nada tendenciosa”, e sair com alguns verbetes adquiridos em manuais, os quais não citam que Segurança Pública, (dentro dela gerenciamento de crises), não uma ciência exata, onde os resultados obtidos são sempre os esperados. Sendo assim quero lhe dar os parabéns por dar um exemplo de profissionalismo quando cita a PMSP, através do GATE, em tão nobre Artigo.
Cristiano Linhares · Almirante Tamandaré (PR) · 3/11/2008 18:16
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Diante do citado é clara a culpabilidade que a mídia e sociedade impuzeram sobre a polícia. Em nenhum momento tem focado o crime de Lindemberg. A propósito, eles deveriam divulgar o artigo 218 junto ao 224 do Código Penal, em relação ao namoro dos dois. Deveriam também comentar a ação da polícia no caput do art 5º da CF, onde discorre a inviolabilidade da vida, e analisarem que no Brasil não há crime punível com a morte, como exigiam no caso um tiro de comprometimento( fatal). Enfim, se for assim toda segurança pública é um fracasso pois estamos nas ruas e não acabamos com a violência; os médicos também o são, pois existem tantos, e milhões ainda estão doentes, os professores também são incompetentes, visto que mesmo com muitas escolas, ainda há muitos analfabetos, e incapaz é a família, pois existem tantas e muitos reclamam de a sua não parecer uma. Somos todos um fracasso então, pois nós nem sempre conseguimos o que queremos.
Pedro Henrique Sinfrônio de Souza Barbosa · Belo Horizonte (MG) · 4/11/2008 12:13
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Realmente meu caro Pasqualetti, suas impressões são contundentes, e não há que se discutir a enormidade de acertos e bem sucedidas operações do GATE. Cumprimentos afetusosos pelos seus comentários.
Deverìamos, isso sim, aproveitarmos este infeliz desfecho e de uma perspectiva madura e serena, sermos capazes de pontuar NESTA OPERAÇÃO ESPECÍFICA os erros, desencontros, desacertos que, sem sombra de duvida, ocorreram e para que possamos, como estudo de caso, evitarmos a sua repetição na prática.
Quantos já participaram de operações de negociação já se defrontaram com uma enormidade de variáveis intervenientes no teatro de operações. O que é inadimissivel é que variáveis controláveis sejam introduzidas de forma irresponsável na cena, tais como, a imprensa dentro de um perímetro extremamente intimo e a volta da "amiga" para o centro das operações. Como psicólogo criminal e instrutor em Gerenciamento de crises, sempre preconizei a não introdução de nenhum fato novo no teatro de ocorrências e nem conceder ao TR nenhuma ribalta que possa exaltar-lhe a já presente, consciente ou inconscientemente, fama momentânea...é isso mesmo, advogo que o sujeito que se propõe tomar um refem, não importa qual seja o seu motivo mais aparente, está imbuido, interna e profundamente da necessidade de ser VISTO a qualquer preço e custo. A compreensão desta dinâmica intra-psicológica se faz mister em qualquer cenário de negociação e tal poderá determinar o desfecho favorável, mostrando que, quanto mais visibilidade se lhe der dentro da perspectiva delituosa, tanto mais ele (o TR) se assegurará que o teatro é dele e ele poderá fazer o que quiser com quem quiser...e aqui o alvo mais próximo é a sua vítima e nunca os experts de plantão...
Peço minhas mais profundas desculpas aos colegas que fartamente já sabem dessas coisas que acima eu disse, mas certamente, alguem que nunca esteve num cenário de negociações, tambem estarão lendo neste excelente forum, e é bom que saibam os dramas internos que se passam na alma de quantos têm uma vida, ou várias, para tentarem preservar, sem estarem abrigados atras de suas escrivaninhas e sim lá no front, não raro olhando o horror e desamparo nos olhos da vitima...
Marcus Vinicius Moreira de Assumpção · Itacaré (BA) · 8/12/2008 13:16
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