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Certa vez um estrangeiro estudioso de culturas distintas da sua chegou á um território chamado Lisarb. Nessa nova terra esse cientista resolveu fixar-se numa província das mais ricas do país continente e, ali, colher o material de sua nova pesquisa. Ele queria olhar para uma cultura diversa da sua e poder estudá-la de forma que pudesse ponderar sobre as favoráveis e os contras de duas teorias da antropologia, o Etnocentrismo e o Relativismo.
Na história da humanidade são velhas e persistentes as teorias que atribuem capacidades específicas inatas a “raças” ou a outros grupos humanos. É comum associar-se a determinados grupos ou povos características de particular natureza social como sendo de natureza biológica. Isso seria como uma espécie de determinismo biológico e, se determinado ser humano nasce em determinado grupo então já ali estão decididas suas capacidades de acordo com sua condição biológica de nascimento. São teorias absurdas que condenam Judeus a serem eternos avarentos, Nórdicos mais inteligentes que Negros, os Americanos mais empreendedores, e assim numa série incontável de outros exemplos que poderiam ser nomeados.
Os dados científicos de que dispomos atualmente não confirmaram a teoria segundo a qual as diferenças genéticas hereditárias constituiriam um fator de importância primordial entre as causas das diferenças que se manifestam ente as culturas e as obras dos diversos povos ou grupos étnicos. Ao contrário, as diferenças se explicam antes de tudo pela história cultural de cada grupo. A própria história do homem quebra o determinismo biológico ou as limitações geográficas que por ventura ocorram já que a grande qualidade da espécie humana foi a de romper com as próprias limitações: um animal frágil, provido de insignificante força física, dominou a natureza e tornou-se o mais temível predador. Não possui asas, mas dominou os ares; sem ser um peixe conquistou os mares; sem forças, é o mais forte oponente de qualquer outra espécie animal. O motivo dessa soberania, ser o único entre todos que possui cultura.
O conceito de cultura como mais usado atualmente vem de Edward Tylor, 1871, Cap. I, p. I, “ Tomado em seu amplo sentido etnográfico é este todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade.”
Dentre as diversas discussões sociais, filosóficas, ou antropológicas dos dias atuais, muitas das quais exacerbadas pelos avanços da ciência genética, estão as teorias do Etnocentrismo e do Relativismo.
O Etnocentrismo é um termo que nos remete a colocar a etnia, o fator “raça” como determinante das demais situações derivadas e, mais ainda, centralizar nossa forma de se socializar com o mundo a partir desse conceito. É, no bom e velho português bem popular, olhar o próprio umbigo e por ele ser seu, entender que é o melhor entre todos. Nesse tipo de viver filosófico o que é diferente é estranho, muitas vezes inaceitável, na maioria das vezes obsoleto e pior do que é o “meu”. Seja o meu carro, seja a minha casa, seja meu filho, o meu time de futebol, a minha cultura... Tudo o que é meu, é o mais correto, o melhor, o aceitável que deveria ser admitido como verdade por todos.
Já para os que seguem a corrente filosófica do Relativismo, tudo o que existe é relativo e depende de toda uma construção situacional que envolve diversos aspectos relevantes desde os sociais, até os momentâneos, passando por aspectos de natureza cultural, física, geográfica e, por fim, de aspectos culturais em geral.
No relativismo o ser se coloca numa posição de tentar entender as ações do outro a partir do ponto de vista do outro e não do seu próprio. Isso não implica em se submeter ou aceitar a outra proposta, mas de se propor ao entendimento da diversidade cultural existente sem estabelecer uma hierarquia entre as diferentes culturas e hábitos. Nesse contexto não existe o certo e o errado, o exótico e o normal, o melhor ou o pior entre uma e outra cultura ou “raça”. Todas têm sua verdade escrita dentro da própria mobilidade social da convivência dentro da comunidade e, dessa forma, o Futebol tão importante para o povo sul americano que vive no Brasil, não tem importância significativa na Venezuela (outro povo sul americano) onde o Basquetebol é o principal esporte daquela cultura. Se o Brasil é o melhor do mundo no futebol, quase sempre é goleado pelos venezuelanos no basquete. A questão é cultural e não de supremacia dessa ou daquela cultura.
Após termos uma noção básica do Etnocentrismo e do Relativismo podemos voltar ao nosso amigo estrangeiro e cientista que chegou a Lisarb para estudar um aspecto da cultura local. Senhor X veio observar uma famosa cultura bélica com guerreiros valorosos que estranhamente, aos olhos estrangeiros, tem os mesmos objetivos, garantem os mesmos direitos e a mesma segurança dos locais, mas, disputam entre si a hegemonia de quem pode fazer o serviço a que se prestam. Ao invés de somarem esforços pelo objetivo comum, eles dividem e disputam os meios de fazê-lo.
Senhor X, observou que um dos grupos, o qual chamou de Instituição “A”, era bem numeroso no número de guerreiros, armas e equipamentos, e que ele possuía uma área geográfica de atuação bastante abrangente, ocupando todo o espaço geográfico daquela rica província. O que chamou mais atenção do senhor X, no entanto, foi que apesar de maior número de guerreiros, armas e equipamentos a Instituição “A” quando fracionada por toda a província em grupos específicos de guerreiros, para cada localidade, tornava-se minoria sendo uma instituição quase sem recursos e de pouca eficácia. Dessa forma a Instituição “A” mesmo forte, tornava-se fraca.
A Instituição “A” tinha seus guerreiros voltados para preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. Esses guerreiros também eram força auxiliar e reserva do Exército em caso de guerra. Essa Instituição “A” possuía uma estrutura profundamente hierarquizada numa estrutura formal e vertical com posições bem definidas em castas quase permanentes. Dificilmente um guerreiro das castas mais baixas subia até as castas mais altas e por isso o número de guerreiros preparados para o comando das tropas era bem menor daqueles que eram comandados. O senhor X entendeu vir daí a necessidade de uma hierarquia tão pesada e rígida que fosse capaz de manter ordem e unidade de comportamento dos guerreiros em quaisquer das localidades daquela rica província situada na nação Lisarb.
Conversando com vários nativos em diversas localidades da rica província, o senhor X coletou depoimentos que demonstravam confiança e satisfação pelos serviços prestados pelos guerreiros da Instituição “A” quando os perigos apresentados contra a comunidade fossem de grande magnitude, quando, porém, se falava das rotinas do dia a dia e dos perigos menores, os nativos foram críticos e demonstraram-se com um sentimento de abandono por parte dos guerreiros em relação a uma presença mais constante e próxima da população. Essa ausência observou o senhor X, fez com que as comunidades criassem formações com seus próprios guerreiros, que não pertencessem à rica província e que ficassem permanentes na defesa das comunidades locais. A essas formações o senhor X chamou de Instituição “B”.
A Instituição “B” foi criada com guerreiros locais nas comunidades, para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, destinadas à proteção de seus bens, serviços e instalações.
Senhor X observou que a Instituição “B” tinha estrutura funcional muito assemelhada à Instituição “A” tanto em formação de guerreiros quanto em armas e equipamentos. Que apesar de em comparação com a Instituição “A” ela ser muito menor dentro da rica província, em relação às localidades quase que na maioria das vezes a Instituição “B” tinha um número maior de guerreiros, armas, e equipamentos. Por sua formação semelhante e sua estrutura funcional parecida, a Instituição “B” fazia dentro das comunidades o mesmo trabalho dos guerreiros da Instituição “A”, porém, por sua maior proximidade com a população local, era mais presente junto à comunidade atendendo a todo tipo de serviço que resultasse no bem estar de todos.
A Instituição “B” era uma formação de guerreiros menor, estruturada numa hierarquia formal menos rígida e serviam muitas vezes de apoio e espécie de força auxiliar da Instituição “A”.
Curioso sobre duas Instituições diferentes serem tão próximas e assemelhadas em sua constituição e atuação, e por que então, não serem uma só, o senhor X resolveu ouvir as impressões e considerações das duas Instituições.
Da Instituição “A” em relação à “B” ouviu que os outros não eram guerreiros, não de verdade, que eles se apropriavam de um poder que não tinha, e que cometiam abuso de autoridade já que no seu entender, a Instituição “B” e seus componentes não tinham de fato esse poder.
Da Instituição “B” em relação à “A” ouviu que os outros não eram guerreiros eficazes e presentes como deveriam. Que se achavam superior, mas não combatiam como deveriam e que tentavam dominar a Instituição “B” através da política, pois um conflito armado resultaria em guerra civil.
O senhor X observou então que apesar de assemelhados em forma e função, servindo aos mesmos nobres propósitos, “A” e “B” se rivalizavam e dentro de uma cultura própria de cada instituição, etnocêntrica e protecionista, elas se enfrentavam e disputavam, ao invés de se integrarem e unirem esforços. Percebeu que de fato muitos oficiais guerreiros da Instituição “A”, depois de afastados dos serviços prestados à rica província, comandavam os guerreiros da Instituição “B”. Observou, porém que na maioria das localidades com essa constituição, as barreiras etnocêntricas entre as instituições foram diminuídas, os valores foram aproximados, e as novas posturas relativistas integraram recursos, guerreiros e políticas de proteção, e melhoraram os serviços locais prestados para as comunidades, por ambas as instituições.
Outra questão levantada pelo senhor X foi como as Instituições “A” e “B” se portavam quando o destino as colocava lado a lado numa crise de vulto em que o bem maior que é a vida era severamente ameaçado. Os componentes da Instituição “A” disseram que seu dever era ajudar e proteger o próximo, sobretudo um guerreiro como eles, e que por isso não mediriam esforços para confrontarem o inimigo. Os componentes da Instituição “B” disseram que fogo inimigo não escolhe a cor do guerreiro, mas sim ataca sem piedade a todos eles e, por isso, seriam totalmente solidários e prestariam apoio incondicional aos guerreiros da Instituição “A”. Senhor X observou então que apesar das diferenças culturais e dos perfis etnocêntricos que regiam e rivalizavam as Instituições, no momento em que cada uma delas ou a população local era realmente ameaçada, eles não mediam esforços conjuntos pela proteção de todos. Eram como irmãos ciumentos disputando a legitimidade do amor dos pais, por vezes divididos por seus preconceitos, mas partes de um só corpo que devia ser protegido sempre e acima de quaisquer ranços ou divergências.
Depois de tantas observações e anotações realizadas o Senhor X chegou a conclusão que as Instituições “A” e “B” eram muito parecidas na forma e conteúdo, faziam o mesmo trabalho de proteção das pessoas, dos bens e dos lugares, e que mesmo assim caminhavam em linhas paralelas mas que não se comunicavam, ao menos não como deveriam. O fato de alguns oficiais aposentados da Instituição “A” comandar depois a Instituição “B” se aproximava nos vilarejos as duas instituições, ao mesmo tempo trazia desconfiança e inveja de ambos os lados de forma que o abismo geral entre todos continua apesar dos fatos. Nesta miscelânea de valores e sentimentos de cada instituição foi possível observar-se que os sentimentos em ambos os lados são bem parecidos e definidos, para ambos o que faz é mais nobre, mais correto, mais valoroso e protetor da população. Ao outro cabe a figura de um usurpador que baseado nos mesmo princípios seus quer na verdade promover o engano e o abuso do poder emanado pelo povo.
Senhor X em suas andanças viu em “A” e “B”guerreiros espetaculares capazes que foram de dar a própria vida pela justiça e por outro ser humano. Em ambas viu guerreiros chorarem pela fome e pelo frio dos mais fracos, pela dor e o sofrimento dos mais humildes. Viu em ambas as instituições guerreiros formidáveis que devotavam a vida pelos pais, pelos filhos, por famílias que não eram deles. Ele viu muitas vezes guerreiros de “A” abraçarem e serem abraçados por guerreiros de “B” de maneira fraternal e digna como somente os heróis sabem faze-lo.
Senhor X em suas andanças viu em “A” e “B” guerreiros que não mereciam assim ser chamados e, ao contrário, serem mercenários cruéis e bandidos sanguinários. Os viu esconderem-se no corporativismo e sob o manto da impunidade, covardes de açoite nas mãos contra o povo sofrido.
Senhor X viu em ambas as instituições os bons guerreiros lutarem para combater o mercenário, falso guerreiro sem honra da farda. Viu então, o laço que finalmente unia tão separadas instituições, o ponto comum acima de qualquer outro: o amor de cada um por sua instituição, seu povo e seu país.
Senhor X encerrou seus estudos certo de que território de sorte era esse Lisarb por ter duas nações tão valorosas e bravas de guerreiro a lhe proteger. Que quando elas crescerem além do seu próprio existir e co-habitarem com respeito e apoio mútuo, que país orgulhoso vai se tornar. Um povo lindo, uma natureza magnífica, guerreiros honrados a proteger.
Senhor X observou que se talvez os gloriosos guerreiros de cinza e os nobres guerreiros de azul puderem um dia se verem sem cores, ou com as quatro principais delas: verde, amarelo, azul e branco; então o povo será uma nação livre e protegida em todos os seus direitos.
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