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Uma volta a pé em uma cidade grande brasileira pode reservar algumas surpresas. Casarios, prédios modernos (ou não), comércio de rua, graffiti e pichações, barracas de comida típica. Alguns desses elementos são comuns a quase todas elas. Se você tivesse que listar o que viu no passeio, possivelmente destacaria esse tipo de coisa. É provável que tenha cruzado com um ou mais moradores de rua. Talvez tenha reparado neles, talvez não. O fato é que, em determinados lugares, eles são parte da paisagem – a ponto da gente olhar, mas não ver. Lamentar, mas logo esquecer. Pelo menos até quase tropeçar com outro pelas calçadas.
E assim vamos vivendo, incorporando à rotina essa parte incômoda da realidade das cidades. No Rio de Janeiro, por muito tempo houve um lugar destinado a fazer esses elementos saírem, pelo menos por uns tempos, das nossas vistas. Era a Fazenda Modelo, abrigo de mendigos – dizem que foi um dos maiores do mundo! - que chegou a ter 1.500 moradores capturados por um ônibus apelidado Cata-tralha ou Mendigão. Entre 1999 e 2003, o médico Marcelo Antonio da Cunha foi o diretor do espaço. Agora, em 2008, ele lançou No Olho da Rua, um livro com algumas das histórias que ouviu por lá e a própria história da instituição, com todas suas contradições, seus problemas e suas (pequenas) vitórias.
No começo, escreveu para curar a depressão gerada por um período tão turbulento de sua vida, em que conviveu com ameaças de morte, cenas intragáveis e personagens desoladores. Depois, entendeu que aquele relato era necessário – e não só para ele. “Com o tempo, percebi que [este livro] pode se destinar aos que, porventura, desejam saber o que pode acontecer com seres humanos que vivem confinados em abrigos ou soltos pelas ruas, com os quais compartilhamos o mesmo habitat e cruzamos todos os dias, muitas vezes desviando, por costume, nossos passos e olhares”, diz ele na introdução.
Fundada em 1947, a Fazenda Modelo passou a ser abrigo de mendigos em 1984. A intenção era boa: ressocializar moradores de rua por meio do serviço rurais ou pequenos trabalhos – como o Projeto Faxina Modelo, que Marcelo explica apontando a contradição: “Eram retirados da rua como sujeira e retornavam para limpar a cidade”. Mas aí houve a radicalização da política de recolhimento e com os mendigos passaram a vir também foragidos da justiça e outros tipos de criminosos.
O resultado, nas palavras de Marcelo, era algo como “a pior cidade do mundo”, da qual seria uma espécie de prefeito sem grandes poderes. Com ironia, neste ponto ele se aproximava do chefe de estado: teria que dividir o poder com os vários grupos que “mandavam” no espaço, como os traficantes.
O relato é contundente e guarda surpresas. Não é pequeno o número de pessoas que vai parar na rua por um acidente de percurso: uma depressão grave, a perda de um ente querido, a perda de memória, a falta de dinheiro para voltar para casa... Gente que já teve família, trabalho, bens e que um dia, de repente, literalmente se perdeu. Numa sociedade em que tempo é dinheiro e que as ruas parecem formigueiros de gente, não há tempo de analisar caso a caso – o que poderia resolver dezenas de situações como essas. Então, o melhor é tirar o incômodo do alcance do olho nu.
Naquela pequena (ou grande) nação de indigentes, a Guarda Municipal marcava presença quando solicitada – o que acontecia quase sempre, sobretudo em dia de pagamento de bolsas de trabalho. A chegada do dinheiro era uma boa notícia, mas vinha sempre acompanhada de tensão, pois resultava na presença de traficantes e agiotas dispostos a cobrar dívidas. A Polícia Militar também teve que ser acionada algumas vezes, sobretudo em casos de ameaças. Muitas delas, destinadas ao próprio diretor. Certa vez, uma foto de Marcelo apareceu no chão riscada com fotos obcenas e olhos furados. Depois, a foto do filho, que ficava em sua sala, surgiu toda riscada.
Outras ameaças vinham por meio de telefonemas anônimos, como ele conta: “A ameaça mais concreta de morte que recebi veio do narcotráfico, por meio de telefonemas anônimos recebidos por alguns funcionários. Do outro lado da linha, alguém me acusava de trabalhar como X-9 para a polícia. Dizia conhecer meu endereço e a escola onde meus filhos estudavam. Exigia, em tom ameaçador, que eu evitasse ações mais repressivas para coibir o uso e a distribuição de drogas na fazenda. Enquanto as ameaças se direcionavam só a mim, consegui, sob muita tensão e medo, suportá-las, mas, quando passou a ser dirigida à minha família, perdi a cabeça. A insegurança, nesse período, tornou-se insuportável. Vivi, então, um dos piores momentos de minha vida.”
Às vezes os recados nem tão anônimos assim. Como quando um dos abrigamos passou a espalhar aos quatro ventos que mataria Marcelo. A Guarda Municipal ficou de olho mas, com a lei do silêncio típica desses ambientes, não havia testemunhas. A saída foi o próprio médico abordá-lo:
"- Que história é essa de me ameaçar de morte?
- Que isso, doutor, não quero matar o senhor, não!
Falava do mesmo modo que um menino prometendo ao pai que não vai tomar o brinquedo do irmão".
Desconstrução
Diante de tal cenário sem perspectivas de progresso significativo, Marcelo e sua equipe tomaram uma decisão radical. Resolveram iniciar o processo de desconstrução do espaço. Ali, idosos ficavam largados, portadores de deficiência não recebiam tratamento adequado, crianças cresciam com grandes chances de se tornarem marginais, gerações se sucediam sem futuro. O ideal era que cada grupo de abrigados tivesse no local adequado, como asilos, clínicas, internatos e, por que não, casas alugadas, inicialmente por meio de um auxílio-moradia.
O trabalho foi duro. Muitos abrigados que estavam ali há anos se consideraram traídos. Alguns conseguiram refazer suas vidas com muito custo, outros não tiveram muita sorte e tantos outros sumiram da vista do ex-diretor. Nota-se pela narrativa que, ao fim da experiência, entre tantos sentimentos contraditórios, Marcelo tirou como lição a capacidade de relativizar muita coisa. De ver que “nós” não estamos tão distante “deles” - ou, como uma das internas dizia, das pessoas que optaram pelo “outro lado da vida”.
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Resolvi escrever sobre este livro aqui no FSP para apresentá-lo a quem não conhece, é claro, mas também para estimular um debate sobre o tema neste espaço dedicado a atores da segurança pública brasileira. Tenho outro texto sobre o livro – com o enfoque mais voltado para as atividades artísticas realizadas na Fazenda Modelo – no Overmundo.
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